A bactéria que causa a tuberculose pode se esconder em células do fígado chamadas hepatócitos e reprogramar seu metabolismo para seu próprio benefício.

Domínio público
Apesar dos avanços da medicina, a tuberculose segue como uma das doenças infecciosas mais letais do mundo. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a enfermidade é responsável por mais de 1 milhão de mortes todos os anos, afetando principalmente populações em situação de vulnerabilidade social.
Causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, a doença é conhecida por atingir principalmente os pulmões, sendo transmitida pelo ar por meio da tosse, fala ou espirro de pessoas infectadas. No entanto, novas pesquisas científicas indicam que o alcance da tuberculose vai muito além do sistema respiratório.
Um estudo publicado recentemente pelos pesquisadores, Sheetal Gandotra e Yogendra Singh Singh do CSIR-Instituto de Genômica e Biologia Integrativa da Universidade de Delhi, Índia, na revista científica eLife revelou que a bactéria pode se instalar no fígado, órgão fundamental para o metabolismo do corpo humano. Os pesquisadores identificaram que o microrganismo é capaz de infectar hepatócitos, células que correspondem a cerca de 80% da massa do fígado, criando um ambiente favorável para sua sobrevivência.
“O fígado oferece nutrientes e um ambiente metabólico que favorece a persistência da tuberculose”
Sheetal Gandotra
De acordo com os cientistas, ao invadir essas células, a bactéria altera o metabolismo do órgão e estimula a produção de gordura, que passa a servir como fonte de energia para o patógeno. Esse mecanismo ajuda a explicar por que, em alguns casos, a doença se torna resistente aos medicamentos. “A bactéria utiliza o próprio funcionamento do organismo para se proteger”, destacam os autores do estudo.

Especialistas afirmam que a descoberta abre caminho para novas estratégias terapêuticas. Em vez de combater apenas o microrganismo, os pesquisadores defendem tratamentos que também bloqueiem os mecanismos do corpo explorados pela bactéria. A expectativa é reduzir o tempo de tratamento, os efeitos colaterais e os índices de abandono.
A pesquisa reforça que a tuberculose não deve ser vista apenas como uma doença pulmonar. O entendimento mais amplo sobre o comportamento da bactéria no organismo humano pode representar um avanço decisivo no enfrentamento de uma enfermidade que, mesmo antiga, continua sendo um grande desafio para a saúde pública mundial.
Mais informações
Sheetal Gandotra trabalha no Instituto de Genômica e Biologia Integrativa do CSIR, em Nova Delhi, Índia. Zheetal.gandotra@igib.in
Yogendra Singh faz parte da prestigiosa instituição Universidade de Delhi, em Delhi, Índia.
ysinghdu@gmail.com